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MENSAGEM Fernando Pessoa
Fotografia Jorge Barros Design João Machado Prefácio José Augusto Seabra Lisboa: ASA, 1999
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Em 2008, contam-se 120 anos desde o nascimento de Fernando Pessoa, poeta que Lisboa viu nascer no dia do padroeiro da cidade, Santo António, a 13 de Junho de 1988. E muitas são as acções de homenagem ao escritor e à sua obra, um pouco por todo o país, pelo que, de forma simbólica, também o Núcleo de Documentação da Câmara Municipal de Évora pretende evocar este vulto imenso da literatura portuguesa, e da literatura universal, sugerindo a leitura de uma peculiar edição da sua obra Mensagem. Trata-se de um volume de vulto, literalmente, pelas suas invulgares dimensões e, metaforicamente, pelo texto de Fernando Pessoa estar majestosamente ilustrado com fotografias de Jorge Barros e ser apresentado em português, alemão, francês, inglês e chinês.
Poema místico sobre a história de Portugal, a Mensagem, por si só, reporta o leitor para gloriosos episódios da génese e do percurso da nação portuguesa, mas nesta edição adquire a cor, a forma e a textura das latitudes e longitudes desbravadas pelos veneráveis portugueses referidos nos seus versos. As imagens de Jorge Barros, fotógrafo natural de Alcobaça, foram recolhidas, de 1984 a 1988, em: Portugal Continental, Açores e Madeira, Cabo Verde, Moçambique, Brasil, Macau, Índia, Marrocos, Senegal, Sri Lanka, Omã e China.
Mas a Mensagem, o único texto, em português, que Fernando Pessoa vê publicado em vida, e apenas um ano antes de morrer, em 1934, não só recapitula alguns dos momentos mais importantes da História de Portugal, como é inequivocamente uma composição de cariz patriotista e renovador, no sentido em que apela ao despertar e à recriação da heroicidade dos portugueses antigos, para a orientação do futuro. A esta interpretação se deve também a conotação da Mensagem com o sebastianismo, não o sebastianismo de D. Sebastião, mas sim o do arquétipo que este representa, o mesmo do Rei Artur, portanto, o da redescoberta do verdadeiro espírito português.
Inicialmente chamado Portugal, o poema da Mensagem, segundo muitos especialistas em Fernando Pessoa, procura mesmo intervir na sociedade portuguesa, conduzido os portugueses para uma missão, a da descoberta da alma, uma vez que já estava cumprida a missão da descoberta do mundo.
A suster esta argumentação está a tradução, do latim para o português, de Mens agitat molem, que quer dizer a mente move a mole, sendo que, por sua vez, a palavra mole em latim é massa, volume, mas também dique, represa. Assim, a intenção da Mensagem é suscitar um movimento no povo português necessário para romper um dique de águas estagnadas, que o poeta considerava estar a paralisar o país.
A epígrafe que abre a Mensagem, Benedictus Dominus Deus Noster qui dedit Nobis Signum, que significa Bendito Deus Nosso Senhor, que nos deu o Sinal, e que é uma referência aos mitos do Quinto Império e da aparição profética de Cristo a Afonso Henriques, antes da batalha de Ourique, é justificada pelo entendimento de Fernando Pessoa de que o mito é o motor da História. O mito é a chave da compreensão da História, é o que lhe dá sentido, e é também o que torna realidade o destino das nações e dos indivíduos, sendo que, o mito necessário para a renovação de Portugal já existe, não tem de ser criado, apenas renovado.
A estrutura do poema da Mensagem, que se apresenta dividida em três partes, obedece a uma constante da obra de Fernando Pessoa, relativa ao número três, verificada sobretudo nos seus textos em prosa, mas também deriva da concepção orgânica de nação do poeta, segundo a qual “uma nação é um organismo psíquico” e Portugal é um ente, um organismo. E as três partes do poema representam as três partes da vida desse ser, nascimento, realização e morte.
Na primeira parte, Brasão, a formação de Portugal, o seu crescimento e os seus heróis abrem o caminho para a segunda parte, Mar Portuguez, tal como uma passagem da idade infantil e juvenil para a idade adulta na vida do homem. Esta parte do poema indica os principais momentos e elementos da expansão, e da missão, de Portugal, sendo o ponto máximo da sua acção atingido com os Descobrimentos. Mar Portuguez termina na paralisação, ou morte, de Portugal e a terceira parte, Encoberto, fala do encobrimento daí resultante e da antecipação profética da ressurreição. Para Pessoa o primeiro dos três grandes factores de decadência de Portugal foi o desastre de Alcácer Quibir, momento a partir do qual se dá o encobrimento gradual do país, mas ele tem esperança num despertar da alma portuguesa, o qual só pode acontecer no meio do nevoeiro, pois é nele que virá o Rei...
Fernando Pessoa, que inventa aos seis anos de idade o seu primeiro heterónimo, Chevalier de Pas, cedo deixa Portugal e passa a infância na África do Sul, regressando em 1905. No ano seguinte ingressa na faculdade, no Curso de Letras, que abandona, abre uma tipografia, que se revela um negócio falhado, e começa a trabalhar como correspondente estrangeiro de firmas comerciais sediadas em Lisboa. Faz, entretanto, muitas outras coisas, ligadas à tradução e à escrita, e é presença habitual nas tertúlias de cafés da capital como o Café Chiado, Montanha e A Brasileira, juntamente com os amigos então conquistados, Mário de Sá-Carneiro, António Ferro, Alfredo Guisado e Almada Negreiros, entre outros. Grupo com o qual funda, em 1915, o Orpheu, revista de vanguarda, sintonizada com os novos movimentos europeus futurismo, orfismo e cubismo, mas que, embora não sobrevivendo até ao terceiro número, consegue, em apenas duas edições, despeitar os conservadores das Letras e impulsionar o movimento modernista português.
Em 1935 morre o poeta, mas jamais a sua obra, e muito menos a Mensagem, poema grandioso que, entre outras dádivas, nos lega a expressão “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.