PATRIMÓNIO
A IGREJA DE SÃO VICENTE
Em 1459 o Cabido da Sé de Évora doou um edifício que era propriedade sua a Luís Loy criado do Infante D. Henrique e porteiro da Sé, para que este nele fundasse a Igreja de S. Vicente. Assim, entre 1461 e 1467, Luís Loy naquele imóvel, dentro da cerca velha e pegada ao muro, erigiu, com licença episcopal, uma modesta igreja, junto ao Arco do Silveira e contígua ao quintal do paço do fidalgo Rui de Sousa.
Nesse local situava a tradição a casa de nascimento e familiar dos mártires eborenses Vicente e suas irmãs, Sabina e Cristeta - esta tradição hagiográfica dos santos irmãos, assim como dos milagres que lhes são atribuídos pertencem à cidade espanhola de Ávila, mas surgiu em Évora numa época que desconhecemos e foi muito divulgada por André de Resende, a partir de meados do século XVI.
Passados cem anos da doação do Cabido da Sé a Luís Loy, em 1559, o município eborense ficou na posse desta igreja, que então estava muito arruinada, por alienamento voluntário da Colegiada de S. Pedro. Por instâncias de Mestre André de Resende, que contribuiu com 10.000rs em testamento, na década de 1560 o Senado determinou transformar completamente o edifício religioso, mas este manteve-se aberto e destinado ao culto religioso até aos finais do século XX, altura em que passou a ter outros usos culturais.
A fachada principal da Igreja apresenta linhas de arquitectura barroca, com portado de granito de cornija rectilínea, frontão triangular, óculo circular e platibanda ornada de fachos de alvenaria. Incrustada no topo Norte, e valorizando o alçado, existe uma estação da Via-sacra da “Irmandade do Senhor Jesus dos Passos”, de 1720, e reconstituída neste local antes da Páscoa de 1856.
Vestígios relativamente importantes da ermida do século XV são evidentes em dois portais góticos que deitam, o maior, para as Escadinhas de S. Vicente, e o menor para a Rua de Valdevinos; e têm influências mudéjares. Subsistem ainda no seu interior outros elementos arquitectónicos e artísticos desta primitiva ermida.
O interior apresenta planta quadrada, composta por três naves e três tramos com abóbada de berço no corpo central, apoiada em robustos pilares de granito de secção poligonal, de ordem dórica e nas partes laterais em plano horizontal, de arquitectura arquitravada. No eixo, nascendo em arcos plenos que acompanham as trompas ornadas de grandes vieiras estilizadas, fito e antropomórficas, rompe a cúpula circular que outrora foi aberta em lanternim.
A cabeceira do templo é composta por três capelas, de arcos redondos e de pedra trabalhada: as colaterais eram dedicadas a Nossa Senhora da Conceição (Evangelho) e a S. Gregório Papa (Epístola) e a capela-mor dedicada a S. Vicente.
Esta última é profunda e possui o altar original de talha dourada dividido em três corpos do estilo jónico, terminado em frontão circular com o emblema pintado do Espírito Santo. No seu corpo central existe um retábulo lavrado no último quartel do século XVI, em linhas clássicas, que conserva os painéis pintados sobre madeira. Sobrepujante, no tímpano, estão dois atlantes que servem de tenentes do retábulo, e no friso inferior estão pequenos retábulos repintados referentes à hagiografia de S. Vicente. Em 1597 este retábulo já estava montado, mas faltavam os acabamentos de pintura e douramento, e nas primeiras décadas do século XVII sofreu a amputação do corpo da banqueta, perdendo-se dois painéis e abrindo-se três nichos onde foram colocadas as imagens dos padroeiros “SS. Vicente, Sabina e Cristeta”. As paredes laterais da capela-mor são caiadas e sem decoração, excepto a pedra onde segundo a tradição se insere a marca de um pé do mártir S. Vicente.
Na nave da igreja destaca-se a pia de água benta, de granito e de estilo gótico. No eixo da nave central, do lado da Epístola está a Capela de Nossa Senhora da Vitória, a qual tem um arco redondo e cujas paredes e o tecto estão forrados de azulejos policromos, de boa execução, sendo o seu altar uma preciosa obra de marcenaria artística.
A “pegada” de S. Vicente Mártir
Vicente era um jovem mancebo e nobre que vivia em Évora no tempo do Baixo Império Romano e que veio a ser vítima do governador Daciano. Este, ao chegar à cidade, lançou uma terrível perseguição contra os cristãos, pelo que, Vicente foi preso e obrigado a prestar culto aos deuses romanos, o que ele se recusou a fazer. Como consequência, Daciano ordenou aos seus soldados que o levassem para o templo de Júpiter e que, se ele continuasse a recusa, o matassem.
Quando os soldados foram buscar Vicente para o levar para o templo pagão, este recusou-se a caminhar e a pedra sobre a qual estava fixado ficou mole como a cera e nela ficaram estampadas as pegadas dos seus pés. Este acontecimento causou grande assombro de todos e o jovem resistente foi então conduzido para sua casa sob escolta de dois soldados. Ali ficando em prisão domiciliária até que, com a ajuda das suas duas imãs, Sabina e Cristeta, foge para Ávila, em Espanha, com medo das represálias de Daciano. Às portas daquela cidade, porém, é capturado pelos romanos e por estes martirizado, vindo a falecer, juntamente com as irmãs. Posteriormente, e ao longo dos séculos, aos três irmãos são atribuídos vários milagres, daí a sua santificação.
A pegada que ele terá deixado na pedra em Évora teve durante séculos grande veneração e foi colocada numa parede lateral da capela-mor da Igreja de S. Vicente, onde ainda hoje se pode observar.